Eu vi um norte – uma viagem ao Pará

É no Pará que se dança o Carimbó e o Siriá, onde se baila o Lundu Marajoara e o Xote Bragantino. Em Belém, Santarém, Marabá ou em Marajó se comem delícias como o Pato no Tucupi, a Maniçoba, o Tacacá e o Jambú. Acompanhados, é claro, de um bom suco de Cupuaçu, Bacuri, Piquiá ou Tapereba.

Lendas não faltam. O Boto que sai em noites de luar; a Caipora, protetora da mata que tem os pés virados para trás para despistar os caçadores; o Muiraquitã, amuleto em forma de sapo que traz felicidade; ou o canto do Uirapuru, homem transformado em pássaro pelo amor de uma mulher e que canta nas noites amazônicas.

Pará de festas e procissões. Quem já ouviu falar do Çairé? Pouca gente conhece essa festa folclórica de caráter ao mesmo tempo religioso e profano, que atrai caravanas à Alter do Chão, pequeno distrito de Santarém. Mas com certeza todos conhecem o Círio de Nazaré, a maior procissão católica do mundo que coloca milhões de pessoas nas ruas de Belém. O Círio é a expressão de dois sentimentos fortes do povo brasileiro: a fé religiosa e o gosto pela festa.

O Pará é igualmente berço de diversas etnias indígenas, exímios conhecedores da floresta, como os Arara, os Amanayé,  Juruna, Zoé, Anambé, Kayapó, entre tantos outros. Floresta que extrapola as fronteiras e se espalha por diversos estados brasileiros e países sul-americanos.  Floresta de árvores seculares, de igarapés e igapós, várzeas e terras firmes. Floresta da Maçaranduba, do Mogno, do Cedro e da Castanheira. Da Andiroba, da Seringueira e da Samaúma, a Mãe da Floresta.

Fica também no Pará a misteriosa cidade de Fordlandia, fundada pelo industrial Henry Ford no início do Século XX para ser um pólo produtor de borracha, e logo depois abandonada. Hoje permanece esquecida e intocada a beira do rio Tapajós.

Com tantos atrativos é no mínimo curioso que o Pará seja tão pouco conhecido e visitado pelos brasileiros. O Pará que, ao mesmo tempo em que preserva tradições restritas a pequenos povoados, projeta para o cenário nacional bandas de ritmo alucinante que arrastam multidões. Pará que dá ao Brasil recursos naturais tão simples como a semente do Açaí, ou a pujança das toneladas de minério de ferro extraídas da Serra de Carajás.

Talvez o Pará, e o norte como um todo, tenha seu potencial cultural e turístico obstruído por tantas tragédias e problemas sociais. Não podemos esquecer que foi em seu território o Massacre de Eldorado de Carajás, o assassinato de Dorothy Stang e tantos outros que se envolvem na questão agrária. Pará de terra griladas, garimpos ilegais, desmatamento acentuado. E estes fatos não podem ser esquecidos, mas também não podem isolar ainda mais esta região do resto do país.

De uma forma ou de outra, tentei trazer para a exposição EU VI UM NORTE – UMA VIAGEM AO PARÁ todos estes elementos. A motivação para a produção deste evento é a de valorizar a pluralidade cultural brasileira e oferecer ao público uma oportunidade de ampliar horizontes e de conhecer uma região com uma riqueza cultural tão distinta do resto do país e ao mesmo tempo tão brasileira. Uma parte do Brasil que contribui enormemente para a formação da identidade nacional e que, no entanto, não recebe tanta visibilidade nos meios de comunicação e nas artes.

Kadeh Ferreira

Maio 2010

A exposição conta com o patrocínio do bureau de impressão Studio Alfa e o apoio do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, do Metrô Rio e da Pitada, agência especializada em music branding (identidade musical) que, na noite de abertura, apresentou fragmentos sonoros da região e da música paraense.

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Making of da exposição

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